Brasil: Vitória-Régia aflorada. Uma Flifloresta em flor nos próximos tempos

Por Eliane Potiguara*

A literatura dos excluídos ainda é uma pele de Boto que foi destruído ao longo dos séculos e que está esquecido e abandonado no fundo dos rios a precisar renascer_ ardentemente_ com a força da alma da natureza e humana.

Mas essa natureza está envolta nas amarras dos séculos de dor, do obscurantismo, dos grandes enigmas e contradições da própria existência, do divino e do amor. A literatura ainda é um segmento cultural e político que não consegue chegar na totalidade das camadas menos privilegiadas social e economicamente do Brasil e do mundo.

Esse Boto Literário precisa ser salpicado com as lágrimas emocionadas da Natureza, muitas desvairadas lágrimas. Aí sim, essas feridas do mundoÂ_ que as mulheres indígenas as eternizaram com seus beijos de cura, bálsamos históricos, histórias não contadas e adormecidas no fundo do rio ou dos oceanos, essas sim, _ serão eternamente curadas, assim como o Boto literário.

A Natureza clama para ser ouvida; o Boto despelado precisa ser ouvido; o grande estrondo do encontro das águas claras e escuras amazônicas suplica secularmente um minuto de audição. Assim é a mente humana: Um mundo imaginário, místico e mítico deste ser que chamamos escritor, escritora, um ser humano diferenciado cujas emoções transcendem a realidade brutal da vida.

Este Ser humano vestido de Boto traz sua alma dilacerada, repleta de feridas e almeja a compaixão do próximo na reconstrução das identidades em busca do ser digno, onde os direitos humanos sejam todos repletos de festas, pétalas de rosas, aromas mais adocicados pela flor do amor e da Vitória-Régia: A cura! A epiderme precisa ser epiderme e não couraça, casco e carcaça.

A visibilidade da literatura é como a vida de uma mulher que viveu mais de trinta anos de dedicação a seu amado querendo ardentemente ter um filho e ele, finalmente, foi ter um filho com outra, negando-lhe não só a maternidade como o próprio amor e a companhia. O útero ressecado e a pele depauperada dessa mulher foi parar no fundo dos rios e mares Oceânicos e Pacíficos.

Ela precisa recuperar a pele de boto, de foca, respirar o ar da luminescência e caminhar com a mulher guerreira a sua frente, nas terras, nos mares, nos rios e nos lagos e transformar esses quase quarenta anos perdidos em quatro dias de vitória e luz. De lá de cima, de onde ela estiver ficará provado no seu âmago que ela poderá observar, sorrateiramente, o mundo e rirá das tempestades: Ei-la nos marcos de novos ares!

A literatura a que me refiro é assim, vem fazendo a caminhada passo a passo com as expressões de artistas do passado e da contemporaneidade cantando e contando a cultura popular. São os escritos caboclos, indígenas, afrodescendendes, mestiços e todas as expressões que não tiveram VOZ.

E a literatura indígena, que do estágio oral saltita pelas letras escritas na estratégia da sobrevivência e dos direitos autorais, dos conhecimentos tradicionais, perpetuam em saberes antigos de curas indígenas, a flamejar pelo território nacional e a desembocar na Flifloresta como as águas do Rio Amazonas. Assim será para os próximos tempos. A Mãe dos Deuses na defesa da floresta e do planeta, promovendo conhecimento e estimulando a leitura.

O homem amazônico e aquele que anda com o guerreiro à sua frente _Tenório Telles_ fundador da Flifloresta acaba de florescer a cura desde a ancestralidade oral sedenta pela escrita e por isso ganha de presente parte dessa cura secular, da almejada, da sedenta visibilidade literária indígena. O I Festival Literário Internacional da Floresta de 2008 aconteceu numa quintessência de grande luminosidade, num espaço de reinos e palácios áureo-populares, cravejados de pedras preciosas do amor, da contemplação, do respeito e fundamentalmente da grande LUZ. Os escritores e as escritoras indígenas estavam lá. Tudo vimos!

As mulheres guerreiras, as chamadas antigas Amazonas e as contemporâneas guerreiras mulheres de todo Brasil, com seu PODER DE MULHER PELA CRIAÇÃO, seja qualquer criação, podem presentear a todos os seus homens e amados um MUYRAKITÃ

como amuleto verde de proteção à vida eterna da alma humana, aquela que fez algo pelo bem caminhar da Humanidade no ato da CRIAÇÃO!

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* Eliane Potiguara, 57 anos, é professora, escritora indígena, formada em Letras, (Português Literatura), contadora de histórias, indicada em 2005 ao Prêmio Nobel da Paz, no Projeto Mil Mulheres pela Paz. É autora do livro Metade Cara, Metade Máscara, Global Editora, possui outros livros e textos em coletâneas. É fundadora em 1987 da Rede GRUMIN ( mulheres indígenas). Ganhou o prêmio do Pen Club da Inglaterra em seu livro A Terra é a Mãe do índio. É diretora do Inbrapi e cidadã do mundo.

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Fuente: Eliane Potiguara

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